Quando a roça fica na esquina de casa

Diário do Comércio, 17/02/2013, por Kety Shapazian

A todas as pessoas que admiram a horta comunitária do Parque das Corujas, no Alto de Pinheiros, na zona oeste, e dizem que querem fazer a mesma coisa numa praça qualquer perto de onde moram, Madalena Buzzo e Joana Canêdo respondem: Calma, primeiro vá à subprefeitura do seu bairro.

“Até porque nós não podemos incentivar a invasão do espaço público”, completa Madalena, enquanto cuidava, ao lado de Joana e outras duas mulheres, em pleno sábado de Carnaval, do terreno de legumes e verduras.

Inaugurada em setembro do ano passado, “com festa e tudo, umas 200 pessoas apareceram”, a Horta das Corujas só existe porque a subprefeitura de Pinheiros permitiu. “E do mesmo jeito que o poder público deixou, ele pode vir aqui e passar um trator em cima a qualquer momento se não cuidarmos da horta”, diz Joana.

“A sociedade precisa entender o uso do espaço público. Tem gente que acha que isso é invasão de terra. Não é”, enfatiza Madalena, moradora da rua onde o parque está localizado e conselheira do Cades (Conselho Municipal do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável) de Pinheiros.

CET – Para que a horta se tornasse possível, foram necessárias muita mobilização e boa vontade. Entre diversas ações, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), por exemplo, doou dezenas de postes de 1,50 metro de altura  que iria descartar.

Os simpatizantes da ideia fizeram uma vaquinha para a compra de tela e arame – um custo de cerca de R$ 700. E a Prefeitura doou a mão de obra para a construção da cerca. “Vira e mexe, a subprefeitura doa coisas: brita, pequenas ferramentas…”, conta Joana.

Em aproximadamente 800 metros quadrados foram plantados legumes, frutas, verduras e ervas: tudo disponível para quem quiser levar algo para casa. A única exigência é respeitar as regras, bem visíveis num cartaz pendurado no portão.

Mas engana-se quem acha que os usuários do parque (inaugurado em dezembro de 2001) correm para se servir.  “As pessoas ainda não sabem usar uma área comunitária. Alguns acham que, se colher, tem de ajudar. Isso aqui é um grande aprendizado do espaço público. Muita gente ainda relaciona a palavra ‘comunitária’ à periferia, à falta de dinheiro. No início, algumas pessoas olhavam para a gente como se fosse invasão. Não é invasão. É para mostrar para todo mundo que dá para fazer isso na sua casa, no seu bairro”, desabafa Madalena.

Quando a horta ainda era novidade entre os moradores, o filho de Joana, Thomas, 8, perguntou um dia à mãe por que as pessoas paravam para perguntar o que as mulheres estavam fazendo ali. “Porque não é comum uma horta comunitária na cidade”, ela respondeu. “Não é?!”, rebateu o menino, incrédulo.

Micro – Para a psicóloga Simone Fassbinder, que também colocou a mão na massa no sábado de Carnaval, a horta comunitária é uma oportunidade de aprender “no micro e levar para o macro”.

“Quero trazer aqui as crianças que atendo para mostrar que trabalhando em conjunto dá mais certo. Que temos de esperar pelo fruto que vai nascer e pela hora certa para colher”, planeja a psicóloga.

O poder público também tem o que aprender. Segundo Joana e Madalena, o responsável pelo Departamento de Parques e Áreas Verdes de São Mateus visitou a horta para aprender com elas como a subprefeitura deve agir, já que tem gente querendo plantar em praças da sua região também. “O cara foi de uma humildade… Vir até aqui para isso”, elogiam.

Mutirões – Quem quiser ajudar na horta pode participar dos mutirões de fim de semana. As datas no primeiro semestre já foram definidas. É só checar no blog https://hortadascorujas.wordpress.com/ . Lá estão também diversas outras informações, desde sobre o que não pode ser plantado no terreno até oficinas e palestras que ocorrem no parque.

Lição de casa – “Se eu quero mostrar aos outros que é possível plantar em São Paulo, tenho de mostrar isso e não esconder dentro de casa.” Essa foi a explicação dada por Joana, que construiu, com a ajuda do filho Thomas e do guarda da rua onde mora, uma horta que ocupa boa parte da calçada em frente à sua residência, também no Alto de Pinheiros. E, para surpresa dos vizinhos, outro dia ela pendurou uma simpática plaquinha na árvore dizendo para as pessoas se servirem. “Mas até agora ninguém pegou nada”, diz.

Foto: Newton Santos/Hype

Joana plantou cebolinha, estragão, sálvia, orégano, coentro, tomilho etc. Por conta do adubo orgânico que usou já nasceram espontaneamente duas mangueiras (que terão de ser retiradas dali), tomate e mamão. “Quando estamos aqui fora, as pessoas param para conversar, elogiam, mas a impressão que tenho é de que elas acham que, em razão da horta estar na minha calçada, ela seja particular”, lamenta.

O guarda, Adão Luiz Eduardo, há 10 anos cuidando da rua, pergunta: “Imagine se todo mundo fizesse isso? Olha quanto espaço a gente tem”, diz, apontando para as casas ao redor.

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