Cinza que te quero verde: vizinhos usam praças para fazer São Paulo menos hostil

Rede Brasil Atual, 02/04/2013, por Tadeu Breda

Tem a ver com poesia a reprodução espontânea de hortas comunitárias nas praças de uma capital que, à primeira vista e à segunda também, é a mais cinzenta do Brasil. Graças à iniciativa de pequenos grupos interessados em “outra cidade possível” e a uma grande ajuda das redes sociais, com destaque para o Facebook, um número cada vez maior de pessoas começa a se juntar em torno dos pequenos pedaços de terra que teimam em existir nas regiões mais urbanizadas de São Paulo.

[…]

“Em fevereiro de 2012, nasceu a proposta de colocarmos em prática todas nossas discussões e finalmente fazer uma horta comunitária”, continua [Claudia Visoni]. “Marcamos uma reunião, descobrimos que muita gente morava na Vila Madalena e depois de muita discussão decidimos fazer um experimento aqui na Praça das Corujas.” Foi nessa bucólica faixa verde da zona oeste de São Paulo, com árvores gigantes e pequenas nascentes de água, que Cláudia me recebeu para um bate-papo. Fez questão de mostrar a parte que lhe cabe no verdadeiro latifúndio que é a horta das Corujas se comparada a outras iniciativas parecidas, mas bem mais humildes, como a minúscula horta dos Ciclistas, encravada na urbanidade sem limites da Avenida Paulista.

Na Corujas, Cláudia planta basicamente feijão, abóbora e milho, culturas rústicas, que não dão muito trabalho. “Assim não preciso vir todos os dias pra regar.” Mas pelo menos duas vezes por semana a jornalista veste seu chapéu de abas largas, calça galochas de plástico, bota uma enxadinha nas costas e pega o carro rumo à horta. Virou uma necessidade. “Assim tiro o cansaço de tudo o que fiz durante a semana”, reconhece. “Hoje em dia não tenho mais tanta necessidade de sair de São Paulo pra relaxar, ter contato com a natureza e fugir da correria, do trânsito, da superlotação. Mexendo com as plantas, que são seres vivos, a gente entra em outro tempo, bem diferente do tempo do computador. É maravilhoso, fora as amizades que fazemos por aqui. Você vai trabalhando na terra e conversando. Tudo é mais demorado, mais tranquilo, sem pressa. É outra relação.

Cláudia gosta de frisar que o cercadinho que delimita a horta não foi colocado pelos hortelões, mas pela prefeitura. Não querem passar a impressão de que estão se apropriando arbitrariamente de um pedaço da praça, que é de todos os paulistanos. Por isso, apesar do pequeno alambrado, a portinhola está sempre aberta. Qualquer um pode entrar a qualquer hora, sem pedir autorização para ninguém.

“Estamos construindo outra realidade, sem cadeados, sem câmeras de vigilância. E até agora não houve nenhum tipo de vandalismo”, reflete, ressaltando que os vizinhos deixam utensílios e ferramentas por ali e nunca tiveram problema de roubo. “Claro que alguém pode entrar aqui durante a noite e levar tudo, arrebentar os canteiros. Mas São Paulo já está muito viciada em coisas negativas. Aqui dá pra ter esperança.”

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