Agricultura urbana transforma relação entre campo e cidade

Globo Rural, 01/09/2013

Hortas urbanas conectam consumidores ao campo e geram renda a comunidades carentes

por Texto: Karin Salomão | Edição: Raphael Salomão
Karin Salomão

Cláudia Visoni na Horta das Corujas, em São Paulo (Foto: Karin Salomão)

Mais contato com o próprio alimento, relação mais próxima entre vizinhos e uma perspectiva diferente da relação entre o campo e a cidade. São experiências que podem ser obtidas com a chamada agricultura urbana.

Em São Paulo, duas jornalistas bastante urbanas resolveram incentivar a troca de informações e sementes. Cláudia Visoni e Tatiana Achcar criaram o grupo Hortelões Urbanos, com quase 5,3 mil membros no Facebook. “Estamos vivendo um momento histórico. As pessoas estão questionando o modelo de ocupação, mobilidade e alimentação. As cidades são muito excludentes e estressantes”, diz Cláudia, para quem as hortas estão mudando essa perspectiva.

Mais do que discutir, o grupo decidiu criar hortas comunitárias. A primeira foi a Horta das Corujas, na Vila Madalena, em novembro de 2012. Atualmente, há também na Praça do Ciclista, na Paulista, na Vila Pompéia, na Vila Anglo, no Centro Cultural de São Paulo, e na Faculdade de Medicina da USP. Os grupos são voluntários. Segundo Cláudia, as iniciativas “valorizam a cultura do campo, a figura do agricultor e o seu trabalho”.

   Divulgação

Uma das hortas comunitárias de Embu das Artes

Em Embú das Artes (SP), o projeto Colhendo Sustentabilidade já ofereceu capacitação técnica a mais de 800 pessoas e beneficiou mais de 2,5 mil indiretamente, desde 2008. Foram feitas ações em mais de 17 bairros. O projeto tem sido considerado referência em vários municípios e no Projeto Guarapiranga Sustentável.

A rede AS-PTA de Agricultura Familiar e Agroecologiatambém desenvolve um projeto de capacitação técnica junto a comunidades carentes, desde 1999. A organização atua em comunidades na zona urbana e periurbana do Rio de Janeiro, Paraíba e Paraná. No Rio, já foram alcançadas 1,5 mil famílias, segundo estimativa de Claudemar Mattos, um dos integrantes da equipe de Agricultura Urbana. Desde 1999, são realizados cursos, palestras e eventos. Em breve, a organização irá lançar um projeto com patrocínio da Petrobrás para fortalecer o acesso a mercados locais na região metropolitana do Rio de Janeiro.

Valorizar o local é vantagem tanto para o agricultor quanto para o consumidor, diz Mattos. “Para o agricultor, é menor custo de produção e economia de combustível. Para o consumidor, um alimento mais fresco e produzido na região”. Para ele, “a interação permite que ambos se conheçam e reconheçam como indivíduos de uma sociedade.”

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Em Sapopemba (SP), uma das hortas do projeto Cidades Sem Fome (Foto: Divulgação)

Aumentar a interação entre os cidadãos também é objetivo da Organização Cidades Sem Fome, de São Paulo. “Os vizinhos começam a conversar dentro da horta”, diz Hans Dieter Temp, responsável pela entidade. Desde 2004, a organização já implantou 21 hortas comunitárias em áreas sem utilidade específica, em área total de mais de três hectares. São áreas privadas e públicas, pertencentes a prefeituras, igrejas, escolas e outros.

Aproximadamente 150 pessoas vivem diretamente do que colhem, chegando a ganhar de um a dois salários mínimos. Mais de mil pessoas já participaram dos cursos oferecidos. “As hortas urbanas têm um potencial gerador de renda muito grande”, diz Temp. Vegetais e hortaliças não são enviados para grandes redes de supermercados, mas vendidos ali mesmo, conta o diretor do projeto. “Para que a agricultura urbana ganhe visibilidade, o projeto incentiva que as pessoas comprem nas hortas.”

Agricultura urbana pelo mundo

 

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a agricultura urbana é uma das maneiras de combater a fome e a pobreza mundial. A partir do projeto interdisciplinar “Alimento para as Cidades”, a ONU auxilia cidades a desenvolver a agricultura urbana e peri-urbana como forma de gerar renda e produzir comida para as grandes cidades.

Uma das maiores cidades do mundo e conhecida pelos arranha-céus, Nova York é um dos exemplos mundiais em agricultura urbana. Manjericão e acelga crescem no Brooklyn, tomates alho-poró e pepinos em Queens. Tudo no topo dos edifícios. A companhia Brooklyn Grange, por exemplo, tem duas fazendas que somam um hectare. É sustentável e também lucrativa: o faturamento cresceu 40% no último ano. A prefeitura procura empresas para transformar o topo de um supermercado no sul do Bronx na maior fazenda de todo de edifícios dos Estados Unidos: a ideia é ocupar 1,86 hectares.

Todmorden, na Inglaterra, pode ser chamada de “cidade comestível”. Os cidadãos começaram a plantar milho, abóboras, vegetais e verduras em quintais, estações de trem, hospitais, delegacias de polícia e até cemitérios. Também incentivaram o “turismo vegetal”, a educação ambiental e a cidadania. As vendas dos produtores locais cresceram 49% desde o início do projeto, em 2008. A partir da iniciativa, mais de 30 cidades na Inglaterra adotaram a agricultura urbana. Assista à palestra da criadora da iniciativa, Pam Warhurst.

Em Montreal, Canadá, há uma na fazenda urbana de 31 mil m² no telhado de um edifício. O empreendimento é da LUFA, empresa que apostou no cultivo próprio em grande escala para a venda e entrega de cestas de vegetais frescos. Na fazenda, há compostagem, reaproveitamento de água e uso sustentável de energia.

Em Zurique, Suíça,os empreendedores do Urban Farmers desenvolveram tecnologia para cultivo urbano utilizando o sistema de aquaponia, que integra a plantação de vegetais ao cultivo de peixes em ciclo fechado, ou seja, os dejetos dos peixes viram nutrientes para as plantas. (veja o vídeo aqui)

Não são apenas topos de edifícios que podem receber fazendas urbanas. Até ônibus podem ser hortas ambulantes. O projeto Phyto Kinetic, criado pelo paisagista espanhol Marc Grañen, cobre com plantações a parte superior dos veículos. A iniciativa já é praticada em Girona, cidade que faz parte da Catalunha.

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