Tem bredo na Horta das Corujas

Sacola Brasileira, 7/11/2013

Há um universo de plantas que se tornaram invisíveis ao olhar do homem urbano. Se você nunca ouviu falar do bredo saiba que já deve ter passado por ele, ou até arrancado um tufo numa limpeza de jardim. Ele faz parte do grupo de vegetais classificados atualmente como PANCs, Plantas Alimentícias Não Convencionais. São ervas que eram tidas como daninhas mas que passaram a ganhar atenção da ciência por suas propriedades altamente nutritivas.

O bredo – ou caruru ou amaranto, escolha o seu nome preferido – é um arbusto rústico que pertence à família das Amaranthus spp. (Amaranthaceae), que é enorme, e inclui plantas super diversas em formato, cor e tamanho. A que estou falando aqui é a variedadeAmaranthus viridis L, bem comum de se encontrar em todo o Brasil.

Ela é plantinha baixa, com estas folhas arredondadas e que dá o ano inteiro facilmente. Nas pontas dos galhos, crescem bastões cheios de sementes. Nas variedades plantadas nos Andes, costuma-se separar os grãos e torrá-los. Você já deve ter visto saquinhos com estas sementes de bredo em lojas naturebas, mas o nome mais adotados nas embalagens é amaranto, mesmo.

Bredo mais robusto que encontrei numa calçada em São Paulo

Apesar a fartura e disponibilidade no Brasil, o bredo é apenas consumido fresco no Nordeste. As folhas refogadas no óleo viram acompanhamento nas refeições. Em seu livroHistória da alimentação do Brasil, Câmara Cascudo menciona o uso comum do bredo, como esparregado, ou seja, um tipo de guisado. Daí explica como é: “esparregar: guisar ervas, cozendo-as bem, depois de picadas e espremidas, se temperam com molhos etc.” É técnica portuguesa que aqui se aplicou a esta planta, mas também ao quiabo, que a gente conhece mais como caruru, veja só, um outro nome pelo qual o bredo é conhecido.

Em Pernambuco, é ingrediente tradicional das comidas da Semana Santa. Depois de refogado, recebe leite de coco para virar acompanhamento do peixe da refeição, que ainda pode ser ladeado por quibebe de jerimum e vatapá. Nessa época do calendário católico, entre março e abril, as barracas das feiras de lá se enchem dos ramalhetes verdejantes de bredo.

Mesmo sem ter uma personalidade marcante no paladar, o bredo tem seu segredo: é rico em ferro e potássio, uma arma poderosa no combate à anemia. Também já foram estudadas suas propriedades contra infeções nos rins e seu potencial para aumentar a lactação em mulheres recém paridas.

Outro dado curioso: originário da América Central e do Sul, o bredo já era cultivado por civilizações antigas, como a dos maias. Há estudos arqueológicos que mostram que este arbusto era associado ao milho como planta sagrada.

Da próxima vez que me deparar com um ramo de bredo, vou pegar as sementes e jogar em um vasinho em casa. Um lugar seguro para coletar é a Horta das Corujas, espaço de plantio comunitário de verduras, legumes e ervas localizado no bairro da Vila Madalena em São Paulo. Um grupo urbano de entusiastas toca este projeto interessante de resgate do contato com a terra. Esta é uma das hortas, conheça outras na página dos Hortelões Urbanos no Facebook.

 

Referência:
CASCUDO, Luís da Câmara. História da alimentação no Brasil. 3ª edição. São Paulo: Global, 2004

 

 

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