Hortas urbanas humanizam e politizam a cidade de São Paulo

Vá de Bike, 6/3/2014, por Rachel Schein

Horta do ciclista, na avenida Paulista, é um respiro num dos lugares mais impermeabilizados da cidade. Foto: Rachel Schein
Horta do Ciclista, na avenida Paulista: pelo menos outras cinco hortas urbanas públicas foram semeadas na cidade desde 2012. Foto: Rachel Schein

 

Em 12 de outubro de 2012, um grupo de pessoas surgiu na avenida Paulista com enxadas, pás, algumas mudas de plantas e muita disposição. Ali, em um canteiro localizado na Praça do Ciclista – bem onde a Paulista toca a Consolação – nascia a primeira horta comunitária da cidade de São Paulo, batizada de Horta do Ciclista.

O primeiro mutirão foi de limpeza. Segundo Claudia Visoni, voluntária dos Hortelões Urbanos, o canteiro da praça estava degradado. Lá foram encontrados cacos de vidro, seringas usadas, lixo e outros descartes.

Hoje o cenário é outro: graças a essa iniciativa, agora é possível colher tomate, alface, milho, couve, manjericão e salsinha, entre outros alimentos, e a população pode se beneficiar do que quiser – embora muita gente ainda não saiba que ali, bem no coração da avenida Paulista, existe uma horta.

Desafios

Manter a horta viva em meio a tudo o que aconteceu na avenida ao longo de 2013 parecia um grande desafio. Já na virada de 2012 para 2013, a Paulista recebeu mais de dois milhões de pessoas para a festa de ano novo. Depois, no início de junho, mais um milhão passou e dançou por ali durante a Parada Gay. Ainda em meados daquele mês, a avenida foi palco da maioria das manifestações contra o aumento das tarifas de ônibus e metrô. A horta, no entanto, não sofreu qualquer prejuízo.

Isso pode ser explicado porque, segundo estudos internacionais, as pessoas não “depredam” comida. “Por mais problemas que a pessoa tenha, ela não pisa numa comida, isso está dentro do ser humano”, justifica Claudia, do Hortelões Urbanos.

Assista abaixo a entrevista com Claudia Visoni e imagens do primeiro aniversário da horta:

A Horta do Ciclista, em São Paulo from Vá de Bike on Vimeo.
 
 
 
 
 
 
 
Senso de proteção: nem Parada Gay, evento que levou um milhão de pessoas para a Paulista, colocou em risco a integridade da horta. Foto: Rachel Schein
Senso de proteção: nem eventos grandiosos como a Parada Gay, que levou mais de um milhão de pessoas para a Paulista em 2013, colocou em risco a integridade da horta. Foto: Rachel Schein

Outras hortas em São Paulo

Depois da Horta do Ciclista, novos mutirões foram feitos e a Vila Beatriz, na zona oeste da cidade, ganhou a Horta das Corujas. A horta fica na Praça das Corujas, que até 2010 era um lugar abandonado. Depois de investimento feito pela prefeitura para corrigir problemas de drenagem, a praça foi transformada em um espaço de convivência para moradores do bairro, que acaba recebendo também visitantes de outras regiões da cidade, atraídos pela beleza do lugar.

Centro Cultural São Paulo, na rua Vergueiro, também ganhou uma horta no seu telhado verde. Vila Pompeia, Vila Anglo, Parque Ipê e o campus do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (IEE USP) também contam com hortas urbanas.

A importância das hortas comunitárias

Além de mudar visualmente o espaço urbano, as hortas trazem mais segurança à cidade. “Uma horta comunitária demanda muito trabalho, muita frequência, e as pessoas que vão cuidar vão num astral de cuidado, do bem, então muda a energia do lugar”, garante Claudia Visoni.

Elas também trazem um senso de coletividade e cidadania. Segundo Ariel Kogan, que participou do primeiro plantio da Horta do Ciclista, sua manutenção é feita de maneira colaborativa e um há um mutirão uma vez por mês. Além disso, quem planta nem sempre é quem cuida, e quem cuida nem sempre é quem colhe. Ariel, por exemplo, ainda não consumiu nenhum produto da horta. O que não é o caso, contudo, de uma senhora que passava ao lado da plantação num sábado à tarde e resolveu colher manjericão. “Vou pegar porque está muito bonito”, disse a senhora. “Pode pegar porque é tudo nosso”, respondeu a fotógrafa e ciclista Poline Lys, que passava pelo local no momento e registrou a colheita espontânea.

Participando de qualquer maneira, as pessoas se engajam numa causa comum e começam a se sentir “donos” da própria cidade. Assim como pedalar, plantar na cidade também transforma espaços e cidadãos.

Senhora que passava pela horta e decidiu colher manjericão: cidade passa a pertencer às pessoas. Foto: Poline Lys

Senhora que passava pela horta e decidiu colher manjericão: cidade passa a pertencer às pessoas. Foto: Poline Lys

Comer é um ato político

“A maior colheita das hortas urbanas é a mobilização social”, afirmou Fernanda Danelon, dos Hortelões Urbanos, durante debate na segunda Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental, realizada em outubro de 2013.

Plantar em praças públicas também é bom para a economia dos próprios cidadãos. Para Fernanda, a revolução começa na nossa própria cozinha. “Segundo dados do IBGE, você gasta de 20% a 30% do seu salário em comida (…), e o que você compra, você está dando dinheiro para o fabricante, então tem uma questão política mesmo aí. Comer pode e deve ser um ato político”, ela afirma (confira a fala de Fernanda a partir de 1:59 deste vídeo).

O filme “Deus salve o verde” (em italiano), exibido durante a Mostra Ecofalante, apresenta histórias de hortas comunitárias pelo mundo. Um interessante registro para quem se interessa pelo tema.

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Uma resposta para Hortas urbanas humanizam e politizam a cidade de São Paulo

  1. Republicou isso em Espaço de Green_Brazil®e comentado:
    A importância das hortas comunitárias

    Além de mudar visualmente o espaço urbano, as hortas trazem mais segurança à cidade. “Uma horta comunitária demanda muito trabalho, muita frequência, e as pessoas que vão cuidar vão num astral de cuidado, do bem, então muda a energia do lugar”, garante Claudia Visoni.

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