Entrevista com Claudia Visoni – “Comida de verdade, tempo e lugar”

Jornal Meio Ambiente, 12/03/2014, por Luciana Ribeiro

Claudia Visoni é uma cidadã paulistana, jornalista, agricultora urbana, que exerce a cidadania ambiental por meio de ações e projetos socioambientais que ressaltam a preservação do planeta Terra.
Com muita alegria e honra verdes, convidamos a amiga da natureza para dialogar sobre benefícios da reeducação alimentar por meio da horta sustentável, ainda, para sabermos um pouquinho dessa perspectiva que difunde a relevância da educação ambiental para os profissionais de diversas áreas e para as famílias brasileiras. Segue a entrevista com ela:
JMA: O que mobilizou seu relacionamento sustentável com a natureza? Poderia recomendar algumas reflexões e ações pra serem realizadas de modo individual?
A consciência de que todos fazemos parte da natureza e estamos interligados. Sou muito influenciada pelo discurso do Cacique Seattle, que li na adolescência, especialmente esse trecho: “A terra não pertence ao homem: é o homem que pertence à terra, disso temos certeza. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará.”  As ações de cada um decorrem de seu padrão de consciência. As informações de como reduzir o impacto negativo que provocamos nos ecossistemas já são bastante conhecidas. A motivação para mudar de atitude depende de mudanças internas de cada indivíduo e das organizações, que nada mais são do que agrupamentos de indivíduos.
JMA: O alimento orgânico, ainda custa mais caro para a mesa do cidadão. O que fazer para que ele se torne viável e sua demanda aumente nas cidades brasileiras?
Os alimentos produzidos com agrotóxicos são subsidiados e muito favorecidos pelo sistema político e empresarial vigente.  Caso os custos ambientais, sociais e de saúde pública da produção convencional fossem contabilizados, esses alimentos seriam muito mais caros do que os orgânicos. Existem basicamente oito razões que encarecem os orgânicos e precisamos refletir a esse respeito se quisermos um meio ambiente não contaminado e uma população mais saudável. São elas: os orgânicos amadurecem mais devagar, os produtores de orgânicos precisam pagar certificação e passar por um período de conversão, praticamente não existem linhas de crédito para a agricultura orgânica, as escala de produção é menor, os produtores orgânicos têm que se proteger sozinhos da contaminação vinda das propriedades vizinhas, falta assistência técnica e pesquisa e os supermercados se aproveitam do apelo dos orgânicos para aumentar suas margens de lucro.
JMA: Poderia recomendar alguns livros ou guias educativos que considera importantes para os cidadãos realizarem o plantio de hortas nos seus lares e nas escolas que carecem de ampliar o debate acerca da sustentabilidade?
Hoje em dia a internet e as redes sociais oferecem bastante informação sobre agroecologia e há comunidades, como os Hortelões Urbanos (no Facebook), que se propõem a viabilizar a ajuda mútua.  Entre as pessoas mais velhas há muitos que detém conhecimentos tradicionais sobre o plantio sem produtos químicos. Além disso, aumenta a cada dia o número de profissionais jovens estão se dedicando à agroecologia. Para quem quer começar a cultivar alimentos, sugiro buscar companheiros na vizinhança, estudar bastante, trocar experiências e, sobretudo, colocar a mão na massa logo. A melhor forma de aprender é praticar.
JMA: Em seu blog Conectar Comunicação  foi divulgada a seguinte consideração política: “Comida de verdade, tempo e lugar”. Como cidadã e profissional paulista, poderia dividir conosco algumas recomendações ou reivindicações para os gestores públicos (prefeito, vereador, deputado, administrador, etc.) poderem atuar a favor do cidadão e do meio ambiente)?
No post mencionado proponho substituir produtos alimentícios industrializados por comida caseira feita com ingredientes orgânicos da safra. Se nos dedicarmos realmente a essa meta, haverá uma grande mudança em nossa saúde e na saúde do meio ambiente. Acredito que as mudanças necessárias em escala governamental são essencialmente as mesmas da escala individual. Precisamos consumir menos e investir nossa energia (ou seja, dinheiro) em cadeias produtivas que sejam economicamente viáveis, ambientalmente corretas e socialmente justas. E mudar o direcionamento macroeconômico: em vez de focar o aumento do PIB a qualquer custo, priorizar a melhoria das condições de vida da população. Afinal, a produção de armas, cigarros, venenos, alimentos não saudáveis e máquinas poluentes também são computadas no PIB e isso não traz benefício algum para as pessoas. Falando especificamente de alimentos, é importante que as políticas públicas incentivem o consumo de comida fresca, orgânica, da safra e produzida localmente.  A lei federal que reserva à agricultura familiar 30% das compras públicas destinadas à merenda escolar é um passo importante e a sociedade precisa cobrar sua implantação.
JMA: Fale sobre o projeto Horta das Corujas, que é realizado na cidade de São Paulo. Ela tem tido o apoio dos moradores e do poder público?
A Horta das Corujas é uma horta comunitária experimental que fica na Vila Madalena, em São Paulo. A proposta é criar um espaço de convívio social e de educação ambiental. Nela os voluntários cultivam, aprender a cultivar e ensinam a cultivar. Aprendemos também a usar o espaço público, respeitando as regras locais e os outros usuários. A Horta possui dezenas de voluntários e inúmeros freqüentadores. Atualmente, um grupo ligado a essa e outras hortas comunitárias de São Paulo tem conversado com o poder público buscando contribuir para a construção de políticas municipais de incentivo à horticultura doméstica e comunitária.
JMA: Fale sobre esse novo eco-olhar sustentável que precisa ser reconhecido em pleno século XXI:“Simplesmente: Dá para ser muito feliz consumindo menos”- Por Claudia Visoni.
Como expliquei na primeira resposta, basta tomarmos consciência de que fazemos parte da teia da vida e de que temos a responsabilidade de entregar para as próximas gerações recursos naturais que permitam a manutenção da vida, para que nossa atitude comece a mudar.
JMA: Os estudos e as diversas pesquisas acadêmicas voltadas para a sustentabilidade confrontam-se com as bases do capitalismo brasileiro, o qual menospreza os fundamentos  da cidadania ambiental para o cidadão brasileiro. Neste sentido, muitos projetos socioambientais a serem realizados nas cidades brasileiras podem falhar ou sequer saírem do papel para modificar ou humanizar o mundo. Poderia indicar algum projeto que considera relevante para rediscutirmos o valor dos direitos humanos e dos direitos da Terra? 
Existem muitas iniciativas e muitas pessoas buscando uma nova maneira de viver e de se relacionar com a natureza. Prefiro não citar, pois são muitas mesmo.
JMA: Você acha que a mídia televisa poderia projetar algum trabalho referente à reeducação alimentar para a vida do brasileiro?De que forma esse desafio educador poderá ser executado com a ajuda do cidadão e das instituições que zelam pela vida humana e ambiental?
Os profissionais da mídia são seres humanos como qualquer outro. Quando tomam consciência de que é preciso mudar o curso da civilização e de que a dieta comum do brasileiro está deixando-o doente, esses assuntos entram em pauta.
JMA: Deixe um recado especial para os leitores do Jornal Meio Ambiente de Curitiba.
Fica o convite para fortalecer a rede de pessoas interessadas em propagar o bem comum, a simplicidade voluntária e o respeito a todas as formas de vida.
Esse post foi publicado em Alimentação, ôrganico, Horta na Mídia, Horta urbana no mundo. Bookmark o link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s