Organizações civis chamam a atenção para os rios da cidade

Perfis Paulistanos, 15/04/2014, por Karin Salomão

Apesar da crise de abastecimento, São Paulo está sobre 500 córregos escondidos

São Paulo vive uma crise de abastecimento de água. Segundo previsão do comitê anticrise, liderados pela Agência Nacional de Águas e pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica, o volume útil do Sistema Cantareira irá se esgotar em julho. O manancial abastece 47% da Grande São Paulo e a região de Campinas.

Diante desse fato alarmante, é difícil acreditar que a cidade está sobre mais de 500 córregos, que percorrem 3.500km, segundo levantamento da organização Rios e Ruas. Durante o desenvolvimento urbano, os cursos d’água foram canalizados e aterrados. “A água é vista como um problema”, diz Andrea Pesk, integrante do coletivo Ocupe e Abrace, que revitalizou a Praça da Nascente. “Temos um grande recurso em rios, mas que está sendo desperdiçado.” Algumas organizações tentam mudar essa situação e trazer o assunto – e os rios – à tona.

Documentário sobre a urbanização de São Paulo e sua relação com os rios:

 

Rios e Ruas

Por mais de 18 anos, Luiz de Campos Jr, geógrafo, estudou a hidrografia da cidade. Acadêmico, publicava artigos sem ser ouvido. Foi quando ele conheceu José Bueno, arquiteto e urbanista, que o incentivou a levar o assunto para as ruas. Foi assim que surgiu o Rios e Ruas. A organização realiza passeios pelo curso dos rios, desenterra nascentes, conta a história da cidade através de seus cursos d’água. “Nosso trabalho é muito sexy”, diz Bueno. “Tiramos a primeira camada da cidade e olhamos para o que há abaixo.”

Campos afirma que não dá para andar 200 metros pela cidade sem cruzar um rio. No início, Bueno duvidou dessa informação e os dois saíram andando. Em um lugar mais úmido e silencioso, características próprias de nascente, escutaram um barulho de água debaixo da terra. Tomados de surpresa, batizaram o rio de Iquiririm, que significa água silenciosa em tupi. O nome oficial é Pirajussara Mirim e o rio, na verdade, não é silencioso. “A gente continua escutando essas águas. Elas têm desejo de correr, de aflorar, fluir, correr entre as pedras, de ter peixe”, diz Bueno.

Em março, no Dia da Água, fizeram uma ação nas nascentes deste rio, no bairro Butantã. Revitalizaram a nascente, plantaram árvores nativas, implantaram horta comunitária, entre outras atividades.

Ação do Rios e Ruas mostra todos os cursos d'água que passam pela cidade (Foto: Divulgação)

nascente do iquiririm

Carnaval

Este ano, dois blocos de carnaval pularam pelos rios da cidade. O Bloco Fluvial do Peixe Seco caminhou pelo curso do rio Saracura, que passa pela Avenida Nove de Julho.  As pessoas desciam por cima da terra e o rio corria por baixo, visível em apenas alguns pontos.

Foram cantando “A rua é do povo que trafega/É do rio de quem navega/É do samba que passou”, samba escrito por Diogo Rios, integrante do bloco. O nome também tem raiz no tupi: Peixe seco é a tradução de Piratininga, o nome que os primeiros moradores da cidade deram ao rio Tamanduateí.

Pós carnaval, foi a vez de outro bloco cantar sobre os rios. “Ouviram da Pompéia /Dessas margens relutantes / que o povo quer de volta / esse rio como era antes” é parte da letra do samba criado pelo bloco Água Pretahttps://www.facebook.com/blocodoaguapreta. O rio homônimo começa na Praça Rio Campos, na Pompeia, e também é canalizado em todo o trajeto.

Anahí Santos, criadora do bloco, disse que notou a necessidade de tratar sobre o tema depois de uma enchente em seu bairro. “Vi as árvores lambidas e reviradas pelo rio. Foi uma sensação muito forte de ver o rio com uma clareza palpável.” Depois, examinou mapas históricos e recolheu histórias de moradores para determinar o trajeto original do rio. Para ela, passar por cima do rio conscientiza bastante. “É uma mistura: enquanto carnaval significa esquecer da vida, nosso bloco traz uma história”, conta.

Bloco Fluvial do Peixe Seco, no carnaval (Foto: Divulgação)

Praça da Nascente

Alguns trechos da praça Homero Silva estavam sempre úmidos. Os moradores do bairro da Pompeia, curiosos, investigaram o porquê. Descobriram mais de três nascentes e rebatizaram a praça, informalmente.

Com ajuda da subprefeitura, do Rios e Ruas e do geólogo Sasha Hart, os moradores criaram o coletivo Ocupe e Abrace. Começaram a desenterrar os rios e a liberar as nascentes. Uma delas é hoje usada para regar a horta comunitária da praça. A qualidade das águas é periodicamente testada pelo SOS Mata Atlântica – as nascentes têm água limpa e não contaminada.

Outra estava tampada por um tronco de eucalipto de 300kg, bem no olho da nascente. Depois de retirar a rolha, o rio corre calmamente e forma um lago bastante charmoso. “Trouxemos de volta a diversidade”, diz Andrea Pesk, integrante do coletivo Ocupe e Abrace. Ela conta que o lago tem peixes e que passarinhos e abelhas voltaram a frequentar a praça. O lago também tem a função de educar os frequentadores da praça. “A primeira coisa necessária para preservar as aguas é mostrar que elas existem”, diz Andrea.

Outra horta comunitária que faz uso de água de nascente é a Horta das Corujas, na Vila Madalena. São mais de oito nascentes na praça. O rio das Corujas corre descoberto durante um bom trecho, exceção entre os rios da cidade.

Horta comunitária da Praça da Nascente, regada com água de rios (Foto: Karin Salomão)

Praça da Nascente (Foto: Karin Salomão)

Lago da Praça da Nascente (Foto: Karin Salomão)

Lago da Praça da Nascente

Chácara da Fonte

Os caminhos dos rios contam muito sobre a história da cidade. Por exemplo, por aqui passava o Peabiru, malha de caminhos indígenas que interligavam a América do Sul. Na Vila Pirajussara, os viajantes paravam para se abastecerem de água, comida e descansarem ao lado da fonte. Depois dos indígenas, tropeiros e bandeirantes também usaram o caminho, segundo estudos, como os desenvolvidos por Júlio Abe Wakahara, arquiteto da Faculdade de Arquitetura da USP.

No entanto, a trilha não existe mais e a fonte, que antes era usada por qualquer pessoa cansada de viagem, está esquecida dentro de uma propriedade particular. “Cheguei a levar meus filhos para tomarem banho na água”, diz Cecília Pelegrini, moradora do bairro.

Hoje, o muro afasta as pessoas da área de 39 mil m² de mata atlântica e a história escorre para o esgoto. A água vinda dos riachos da chácara sai pelo portão da Rua da Fonte. Ali, na calçada, há mata, pedrinhas, girinos e até peixes. Mas apenas por 10 metros; depois disso, entra na boca de lobo. Debaixo da terra, encontra-se com o córrego Pirajussara Mirim. Segundo medições feitas por Cecília e Dinho Nascimento, seu marido, quase um litro de água por segundo é desperdiçado.

Músicos e artistas do bairro realizaram diversas festas e ocupações para transformar a chácara em parque municipal, para preservar a fonte e a história arqueológica do bairro. Entraram com um projeto na Secretaria do Verde em 2011.

Rua da Fonte, no Butantã, tem rio com peixes na beira da calçada. Na foto, XXXXXXXXX (Foto: Karin Salomão)

Desperdício de água limpa na Rua da Fonte

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2 respostas para Organizações civis chamam a atenção para os rios da cidade

  1. Luiz de Campos Jr disse:

    vamuquivamu…🙂

  2. luiz antonio veraguas sanchez disse:

    vamos tomar uma PET de mineral gaweificada!!!!!!!!!

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