Os ‘heróis anônimos’ da natureza de SP

O Estado de São Paulo, 08/03/2015, por Edison Veiga e Tiago Queiroz

São Paulo poderia ser menos árida. A cidade também tem espaço para árvores, pássaros, flores, frutas, abelhas, hortinhas. E, com mais natureza, os paulistanos ganham qualidade de vida. Nisto muitos acreditam, é claro. Mas alguns cidadãos, mais do que acreditar, têm arregaçado as mangas para transformar o cinza em verde, o concreto em árvore.

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

É o caso do advogado Danilo Bifone (foto acima), de 39 anos, que espalha árvores pela cidade de uma forma “quase subversiva” há duas décadas. “No total, acho que já foram umas 15 mil mudas”, estima. “No começo, eu via um imóvel vazio e armava a operação: ia de noite e plantava.”

Depois ele descobriu que não há nada que proíba que uma pessoa plante uma árvore em espaço público – desde que sejam respeitadas algumas normas previstas em cartilha da Prefeitura, como espaço mínimo de mobiliário urbano. Há dois anos, Bifone decidiu organizar sua ação. Criou o grupo Muda Mooca.

“Identificamos um espaço propício para o plantio, aí vamos conversar com os moradores, tentar integrar a vizinhança. É importante que eles abracem a causa, adotem e cuidem da árvore”, conta. De acordo com o advogado, jamais o custo do plantio é cobrado do morador. O valor de uma muda de árvore varia de R$ 30 a R$ 1 mil, conforme espécie e tamanho. “Viabilizamos com doações ou, às vezes, até conseguimos mudas da Prefeitura”, explica Bifone, que sonha espalhar a iniciativa por outros bairros de São Paulo. “Apesar do nome do grupo, já plantamos em outras regiões que não a Mooca”, diz.

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

“Reflorestar São Paulo” é a pretensão do grupo #boraplantar. Mas não exatamente os espaços livres das calçadas. “Queremos recriar as matas ciliares das regiões de mananciais. Focamos onde tem água”, explica uma das integrantes do grupo, a jornalista Carol Ramos, de 36 anos. Em dezembro, eles realizaram o primeiro plantio – 300 mudas na região de Parelheiros, extremo sul do município. De lá para cá, outras ações do tipo vêm sendo realizadas, sempre em áreas de proteção ambiental.

Já a obsessão do engenheiro Johan Dalgas Frisch, de 85 anos, são as aves. Ainda criança, ele tinha o hábito de passar as folgas escolares percorrendo as matas do Morumbi e brincando na várzea do então limpo Rio Pinheiros. Aos 7 anos, encontrou uma juruviara machucada e mostrou ao pai, o engenheiro e desenhista Svend Frisch. O pássaro acabou morrendo, contudo foi eternizado em um desenho de Svend.

Mas foi nos anos 1960 que ele percebeu que o que andava espantando os pássaros de São Paulo era a falta de “restaurante”, como ele costuma se referir às árvores frutíferas. Na época, conforme ele levantou, apenas seis espécies de aves podiam ser vistas na cidade – nos anos 1930, eram 200. Com o apoio de estrelas como Hebe Camargo e Vicente Leporace, os paulistanos voltaram a valorizar as boas árvores para os passarinhos. Frisch estima que, de lá para cá, o número de espécies que podem ser observadas na cidade saltou para 100.

Para dar exemplo – e também ganhar a convivência diária das aves –, o engenheiro colocou a mão na massa. Nas últimas décadas, encheu a Praça Uirapuru, em frente ao seu escritório, no Morumbi, de plantas que atraem pássaros. “Quer atrair juruviara? Plante guaçatonga. Fogo-apagou gosta de crindiúva, saí-andorinha vem quando tem magnólia-amarela, gaturamo é atraído pela calabura e assim por diante. Aí eu fui plantando essas mudas por aqui”, enumera. “E tem mais: uma macaíba por atrair até 70 espécies de aves, uma caneleira, mais de 40.”

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Também há os que defendem um retorno às origens, ao tempo em que todo mundo tinha uma hortinha no fundo do quintal – e havia muita interação com a vizinhança para trocar uma cebolinha por um tomate. Na Praça das Corujas, entre as vilas Beatriz e Madalena, um grupo começou um projeto comunitário em 2012. Que segue dando frutos, em todos os sentidos, até hoje. “Éramos vários que plantávamos em casa. Aí pensamos: por que não uma horta em espaço público?”, comenta a tradutora Joana Canedo, 42 anos, uma das integrantes. “Não tem regra: quem quiser, planta; quem quiser, colhe; quem quiser, planta e colhe”, conta ela.

A ideia deu tão certo que até a hortinha da casa da Joana, nos Altos de Pinheiros, também se tornou “pública”. “Inicialmente era no meu jardim, mas agora fica na calçada em frente à minha casa. Aberta a quem quiser”, diz.

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Abelhas. Nos últimos anos, a preocupação com uma possível extinção das abelhas tem tirado o sono de ambientalistas. Isto porque elas cumprem um papel fundamental à vida na Terra, por serem polinizadoras. Designer e gestor ambiental, Flávio Amaral Yamamoto, de 33 anos, herdou do pai, apicultor em Cotia, o trato com as abelhas – mas incorporou ao ofício, para ele um hobby, o ofício preservacionista.

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Criou no Facebook o S.O.S. Resgate de Abelhas Sem Ferrão, uma corrente de doações de enxames dessas espécies de abelhas – estima-se que existam mais de 300 do tipo no Brasil. “Fazemos os resgates dos enxames e ajudamos as pessoas a construir meliponários. Em casa tenho 12”, conta ele. “Não mexo, não retiro o mel, não faço nada. Apenas quero que elas vivam, que os enxames fiquem fortes.”

Ele diz que muitas vezes é chamado para retirar um enxame – em um muro, em um oco de árvore – porque as pessoas costumam ter medo das abelhas. “Mas aí eu explico a importância e elas acabam se convencendo que não há mal nenhum em cuidar. Ou seja: em 80% dos casos, não retiro o enxame; ensino a cuidar”, relata.

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

O técnico de sistemas do Metrô, Eloy Ferreira de Meneses (foto acima), 56 anos, não se restringe às abelhas sem ferrão. Ele aprendeu a tirar enxames ainda criança, aos 9 anos, quando vivia no Paraná. Em São Paulo, acaba sendo requisitado por vizinhos e conhecidos para retirar algum, quando aparece – e, mesmo no Metrô, já fez esse tipo de serviço, sempre de forma voluntária. “Tiro com cuidado, para que o enxame não se perca, porque sei da importância desses bichos. O que não gosto de saber é que tem gente que, por medo, acaba matando as abelhas, que são importantíssimas para a natureza”, comenta.

Ele conta que costuma cuidar do enxame em sua casa, no bairro de Americanópolis, até conseguir levar para um sítio que tem no interior do Estado. “Já cheguei a ter dez enxames em casa”, afirma. “Em outros casos, acabo soltando o enxame no Parque do Estado, que fica aqui perto de casa.”

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